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sábado, 3 de janeiro de 2026

JEFF THE KILLER


 


Trecho de um jornal local:

TERRÍVEL ASSASSINO EM SÉRIE AINDA À SOLTA

Após semanas de assassinatos inexplicáveis, um assassino desconhecido continua foragido. Poucas evidências foram encontradas, mas um jovem afirma ter sobrevivido a um dos ataques e corajosamente contou sua história:

“Tive um pesadelo e acordei no meio da madrugada. Percebi que, por algum motivo, a janela estava aberta, mesmo tendo certeza de que a havia fechado antes de dormir. Levantei-me, fechei-a novamente e voltei para debaixo das cobertas.

Foi então que senti algo estranho… uma sensação incômoda, como se alguém estivesse me observando.

Olhei para cima e quase pulei da cama. Ali, no meio de um feixe de luz filtrado pelas cortinas, vi um par de olhos. Mas não eram olhos comuns; eram negros, profundos, ameaçadores… simplesmente pairando ali, me aterrorizando.

Foi então que vi a boca. Um sorriso horrendo, que fez todos os pelos do meu corpo se arrepiarem. A figura me observava silenciosamente.

Após o que pareceu uma eternidade, ele falou. Uma frase simples, mas dita de forma insana:
— Vá dormir.

Gritei, e foi isso que o fez avançar sobre mim. Ele apontou uma faca diretamente para o meu coração e pulou na cama. Lutei com ele, chutei, soquei, rolei, tentando tirá-lo de cima de mim. Foi então que meu pai entrou no quarto.

O homem jogou a faca, acertando o ombro do meu pai. Provavelmente ele teria matado meu pai também se um vizinho não tivesse chamado a polícia.

Eles estacionaram em frente à minha casa e correram para a porta. O homem fugiu escada abaixo. Ouvi um vidro quebrando. Quando saí do quarto, vi que a janela dos fundos estava quebrada. Olhei para fora e o vi correndo, já distante.

Uma coisa eu sei: nunca vou esquecer o rosto dele. Aqueles olhos malditos, frios, e aquele sorriso psicótico… isso nunca vai sair da minha cabeça.”


Jeff e sua família haviam acabado de se mudar para uma nova vizinhança. Seu pai havia sido promovido no trabalho, e decidiram que seria melhor viver em um bairro mais “requintado”. Jeff e seu irmão, Liu, não podiam reclamar: uma casa nova e melhor. O que havia para não gostar?

Enquanto desempacotavam as caixas, uma vizinha se aproximou para conhecê-los.

— Oi — disse ela, sorrindo. — Sou Bárbara, moro do outro lado da rua. Vim dar as boas-vindas e também apresentar meu filho!

Ela se virou e chamou:

— Billy! Estes são os nossos novos vizinhos!

O menino acenou rapidamente e correu de volta para brincar no pátio.

— Muito prazer — disse a mãe de Jeff. — Sou Margaret, este é meu marido, Peter, e estes são meus filhos, Jeff e Liu.

Após alguns minutos de conversa, Bárbara os convidou para o aniversário de Billy.

Jeff e Liu já estavam prontos para recusar o convite, mas antes que pudessem dizer qualquer coisa, a mãe deles respondeu com entusiasmo:

— Adoraríamos comparecer!

Mais tarde, enquanto terminavam de desempacotar, Jeff foi até a mãe.

— Mãe, por que aceitou o convite daquela festinha? Eu não sou mais uma criancinha, sabia?

— Jeff, acabamos de nos mudar. Devemos mostrar que queremos nos enturmar com os vizinhos. Vamos à festa, e ponto final.

Jeff quis retrucar, mas sabia que seria inútil. Quando sua mãe tomava uma decisão, era fim de papo. Subiu para o quarto, caiu na cama e ficou olhando para o teto. Então sentiu algo estranho. Não era dor, mas uma sensação inexplicável. Ignorou, achando que fosse apenas cansaço ou estresse da mudança.

Logo ouviu a mãe chamando do andar de baixo. Levantou-se e desceu.

Na manhã seguinte, Jeff foi tomar café antes da escola. Ao se sentar à mesa, aquela mesma sensação estranha voltou, desta vez mais forte. Era como um ardor interno, um incômodo crescente. Sentiu um leve aperto no peito, mas novamente ignorou.

Assim que ele e Liu terminaram o café, saíram andando até o ponto de ônibus. Sentaram-se e ficaram esperando até que, de repente, um garoto em um skate passou por cima deles, a poucos centímetros de suas cabeças. Os dois pularam, assustados.

— Mas que porra é essa?! — exclamou Jeff.

O garoto deu a volta, parou diante deles, pisou na ponta do skate e o pegou com a mão. Parecia ter uns doze anos, um ano mais novo que Jeff. Usava uma camiseta da Aeropostale e jeans azul rasgado.

— Ora, ora, ora… parece que temos carne nova na área.

Dois outros garotos apareceram logo em seguida. Um era extremamente magro; o outro, enorme.

— Já que vocês são novos por aqui, vamos nos apresentar — continuou o skatista. — Aquele ali é o Keith — disse, apontando para o magrelo, que parecia estar em transe. — E o outro é o Troy — apontou para o gordo, que parecia não se exercitar desde que engatinhava. — E eu sou o Randy.

Ele sorriu de lado.

— Agora escutem bem: aqui no bairro todo mundo paga uma taxinha para pegar o ônibus… se é que me entendem.

Liu se levantou, pronto para dar um soco no garoto, mas um dos capangas de Randy puxou uma faca e apontou para ele.

— Tsc, tsc… achei que vocês seriam mais cooperativos — disse Randy. — Mas parece que vamos ter que fazer do jeito mais difícil.

Ele caminhou até Liu e tirou a carteira de seu bolso. Jeff voltou a sentir aquela sensação incômoda, só que agora intensa, quase ardente. Levantou-se.

— Ei, moleque. Devolve a carteira do meu irmão, ou…

— Ou o quê? — retrucou Randy, tirando uma faca do bolso.

Antes que pudesse terminar a frase, Jeff deu um soco direto no nariz dele. Randy tentou reagir, mas Jeff agarrou seu pulso e o torceu com força, quebrando-o. Randy gritou, e Jeff pegou a faca de sua mão.

Troy e Keith avançaram, mas Jeff foi mais rápido. Derrubou Randy, desviou de Keith e cravou a faca em seu braço. Keith caiu no chão, gritando. Troy tentou lutar, mas Jeff o acertou com um soco certeiro no estômago. Troy caiu de joelhos e vomitou. Liu assistia a tudo, em choque.

— J-Jeff… como você fez isso…? — foi tudo o que conseguiu dizer.

O ônibus apareceu ao longe. Os garotos sabiam que seriam responsabilizados por tudo aquilo. Correram o mais rápido que puderam. Ao olhar para trás, viram o motorista correndo em direção aos agressores caídos.

Chegaram à escola sem contar a ninguém o que havia acontecido. Apenas sentaram-se e assistiram às aulas. Liu achava que tinha sido apenas uma briga, mas Jeff sabia que havia algo mais. Algo sombrio.

Toda vez que aquela sensação aparecia, ele sentia poder… e um desejo incontrolável de machucar. Era como se uma parte dele gostasse daquilo, o que o deixava perturbado, mas, ao mesmo tempo, estranhamente feliz.

Dois dias se passaram. Nenhuma notícia de Liu no centro de detenção. Jeff não tinha amigos nem vontade de sair. Apenas tristeza… e culpa.

Até que, no sábado de manhã, sua mãe entrou em seu quarto com um sorriso iluminado, abrindo as cortinas de repente.

— Hoje é o grande dia, Jeff! — disse, animada.

— O quê? — perguntou ele, ainda meio sonolento.

— A festa do Billy, lembra?

Jeff sentou-se na cama, incrédulo.

— Mãe… você só pode estar brincando. Acha mesmo que vou a uma festinha de criança depois de tudo o que aconteceu?

Houve um silêncio constrangedor por um instante. Margaret se aproximou com firmeza.

— Jeff, nós dois sabemos o que aconteceu. Mas talvez essa festa seja exatamente o que precisamos para seguir em frente. Agora, vá se vestir!

Ela saiu do quarto, determinada. Jeff se arrastou para fora da cama, sem nenhuma vontade. Pegou qualquer camiseta, uma calça jeans e desceu. Encontrou os pais já prontos: o pai vestia um terno elegante, e a mãe usava um vestido de festa.

“Por que eles sempre se vestem de forma tão exagerada para uma festa infantil?”, pensou Jeff.

— Filho, é só isso que você vai vestir? — perguntou a mãe, arqueando as sobrancelhas.

— Melhor do que parecer um pinguim num terno! — resmungou Jeff.

Margaret engoliu a vontade de discutir, escondendo a frustração atrás de um sorriso forçado.

— Jeff, você poderia tentar se arrumar um pouco melhor, só para causar uma boa impressão — disse o pai.

Jeff bufou e subiu novamente as escadas, resmungando.

— Eu nem tenho roupa “de festa”!

— Pegue qualquer coisa que esteja limpa! — gritou a mãe lá de baixo.

Depois de revirar o guarda-roupa, Jeff encontrou uma calça preta, usada apenas em ocasiões especiais, e um moletom branco jogado sobre uma cadeira. Era o melhor que conseguia.

Ao descer, seus pais o observaram com certa decepção.

— Vai assim mesmo? — perguntaram quase em uníssono.

— Droga, não temos tempo para mudar! Vamos! — disse a mãe, puxando Jeff e o marido para fora.

Eles atravessaram a rua e foram até a casa de Bárbara. Ela abriu a porta, tão exageradamente arrumada quanto os pais de Jeff.

— As crianças estão no quintal. Jeff, por que você não vai conhecer algumas delas? — disse ela, servindo uma taça de vinho.

Jeff saiu e viu o jardim cheio de crianças vestidas de caubóis, correndo e atirando umas nas outras com armas de brinquedo.

Um dos meninos se aproximou e entregou a Jeff uma arma de plástico e um chapéu.

— Ei! Quer brincar?

— Ah, não mesmo, pirralho. Sou velho demais para isso — respondeu Jeff, emburrado.

— Por favooor… — pediu o garoto, com um olhar de filhote abandonado.

Jeff revirou os olhos.

— Tá bom.

Colocou o chapéu e começou a brincar, fingindo atirar nos outros. No início, achou tudo ridículo, mas aos poucos foi se divertindo. Pela primeira vez em dias, conseguia se distrair… até ouvir um som metálico de rodas de skate.

Clac!

Algo o acertou em cheio.

Randy, Troy e Keith pularam a cerca, cada um com seu skate. Jeff deixou a arma de brinquedo cair e tirou o chapéu. Randy o encarava com ódio nos olhos.

— Jeff… temos assuntos inacabados.

Jeff notou o nariz torto e machucado de Randy.

— Estamos quites. Eu te dei uma surra, e você mandou meu irmão para o reformatório.

— Eu não jogo para empatar. Eu jogo para ganhar — rosnou Randy. — Você pode ter vencido uma vez, mas hoje é diferente!

Randy correu em direção a Jeff, e os dois rolaram pelo chão. Randy acertou um soco no nariz de Jeff, mas Jeff agarrou suas orelhas e desferiu uma cabeçada violenta. Ambos se separaram, ofegantes.

As crianças gritavam, e os adultos começavam a correr para fora da casa. Nesse instante, Troy e Keith sacaram armas dos bolsos.

— Ninguém se mexe, ou vão voar tripas! — gritaram.

Randy puxou uma faca e a cravou no ombro de Jeff, que caiu de joelhos, gritando. Em seguida, começou a chutá-lo repetidamente no rosto. Jeff, então, agarrou o pé dele e o torceu com força, derrubando-o.

Levantou-se cambaleando e correu em direção à porta dos fundos, mas Troy o agarrou.

— Precisa de ajuda? — zombou, jogando Jeff de volta para o quintal com brutalidade.

Jeff mal teve tempo de se levantar e foi novamente chutado por Randy. Tossia sangue. Randy o segurou pelo pescoço e o arremessou para dentro da cozinha.

Ali, Jeff viu uma garrafa de vodka sobre a bancada. Randy a pegou e a quebrou na cabeça dele.

— Lute, desgraçado!

Randy o empurrou de volta para a sala de estar.

— Olhe para mim! — gritou. — Eu sou quem mandou seu irmão para o reformatório. E você… você só vai assistir ele apodrecer lá por um ano inteiro! Isso mesmo. Sinta a culpa! Você deveria se envergonhar!

Jeff, sangrando e cambaleando, começou a se levantar. O sorriso de Randy se alargou.

— Finalmente! Levante-se e lute!

Jeff ficou de pé, coberto de sangue e vodka. E então… sentiu de novo. Aquela sensação. Aquilo que já conhecia, mas que agora vinha com força total.

Randy correu em sua direção, mas Jeff não hesitou. Agarrou-o pelos ombros e o jogou no chão. Subiu sobre ele e socou seu peito com tamanha força que o coração de Randy simplesmente parou. Mesmo após o último suspiro, Jeff continuou esmurrando, afundando cada vez mais os punhos em seu peito ensanguentado.

Pais e crianças gritavam em choque. Troy e Keith, mesmo apavorados, apontaram suas armas para Jeff. Ele correu escada acima enquanto os tiros erravam por centímetros.

Ao chegar ao banheiro, Jeff arrancou o toalheiro da parede e se preparou. Troy e Keith surgiram logo depois, ambos com facas em punho. Troy atacou primeiro. Jeff desviou e acertou o rosto dele com o toalheiro. Troy caiu desacordado no chão.

Agora restava Keith. Ele era mais ágil. Desviou dos golpes e agarrou Jeff pelo pescoço, empurrando-o contra a parede. Um frasco de água sanitária caiu da prateleira, derramando-se sobre os dois.

Ambos gritaram de dor. A pele queimava intensamente. Jeff, mesmo temporariamente cego, conseguiu agarrar o toalheiro e acertou a cabeça de Keith com força.

Keith caiu no chão, sangrando, mas ainda sorria de forma doentia.

— O que é tão engraçado?! — perguntou Jeff, arfando.

Keith, quase desmaiando, conseguiu acender um isqueiro.

— Você está coberto de álcool… e água sanitária…

Em seguida, jogou o isqueiro em direção a Jeff.

Assim que as chamas o tocaram, Jeff se transformou em um inferno ambulante. Gritava enquanto o fogo consumia seu corpo. Correu pelos corredores em desespero e acabou caindo escada abaixo, ainda em chamas, diante de todos os convidados.

A última coisa que viu foi sua mãe, em completo desespero, tentando apagar o fogo com as próprias mãos.


Alguns dias depois…

Jeff acordou lentamente, sentindo uma ardência constante por todo o corpo. Sua visão estava embaçada, mas, aos poucos, as luzes do hospital se tornaram visíveis. Um bip constante ecoava ao lado de sua cabeça. Seus braços estavam enfaixados, e o rosto parecia coberto, como se estivesse usando uma máscara.

— Ele acordou! — gritou a enfermeira, correndo para chamar os médicos.

Margaret e Peter entraram no quarto logo depois, aliviados. A mãe correu até a cama e segurou a mão do filho.

— Jeff, meu amor… você está bem! — disse, com lágrimas nos olhos.

Jeff tentou falar, mas sua boca mal se movia.

— Está tudo bem — disse o médico. — Você ainda está se recuperando das queimaduras. Seu corpo respondeu bem aos enxertos e aos tratamentos. Mas o seu rosto…

Margaret encarou o médico, apreensiva.

— Podemos tirar os curativos agora?

— Sim — respondeu o doutor. — Mas estejam preparados. Ele não será o mesmo.

Com cuidado, começaram a remover as bandagens. Camada por camada, a pele queimada foi sendo revelada. Margaret levou a mão à boca, horrorizada. Peter desviou o olhar.

Quando o último pedaço de gaze caiu, posicionaram um espelho diante de Jeff. Ele olhou… e permaneceu em silêncio.

A pele de seu rosto estava completamente branca, quase como cera. Seus lábios haviam derretido parcialmente, formando um sorriso permanente e torto. Os olhos pareciam mais escuros, mais profundos, como se nunca mais fossem capazes de expressar emoção.

— O… o que aconteceu…? — sussurrou Jeff, tocando o próprio rosto.

— A água sanitária e o álcool queimaram profundamente a sua pele e… — o médico respirou fundo — …a reconstrução não conseguiu restaurar completamente suas expressões faciais.

Margaret conteve o choro, tentando se manter firme.

— Está tudo bem, meu filho. O importante é que você está vivo. Vamos superar isso… juntos.

Jeff, porém, continuava encarando o espelho. Passou os dedos lentamente pelo rosto. A princípio parecia chocado, mas então algo mudou. Um leve tremor percorreu seus olhos. Seus lábios se forçaram em um sorriso, não de dor, mas de algo mais profundo.

— É… bonito — disse, com um tom sereno demais para a situação.

Peter arregalou os olhos.

— Bonito?

— Sim… eu nunca me senti tão… livre — respondeu Jeff, sem desviar o olhar do espelho. — Antes, eu era fraco. Agora… eu sou perfeito.

Os médicos trocaram olhares preocupados.


Naquela noite, Margaret acordou no hospital ao ouvir um ruído estranho vindo do banheiro. Levantou-se e foi verificar. Ao entrar, viu Jeff diante do espelho, segurando um pequeno canivete retirado da gaveta médica.

— Jeff?! O que você está fazendo?!

Ele se virou lentamente. Seu rosto estava coberto de sangue. Ele havia cortado as próprias pálpebras.

— Eu só… queria ver melhor — disse, sorrindo.

— Meu Deus! — gritou a mãe.

— Não grita, mãe… — disse ele calmamente. — Eu não consigo mais dormir. Toda vez que fecho os olhos, eu ouço ele… o riso… o fogo. Está tudo tão claro agora. Eu entendo o que eu sou.

Margaret correu até o interfone para pedir ajuda, mas Jeff avançou e a derrubou no chão.

— Mãe… por que você grita? Você deveria estar feliz. Agora eu sou eu mesmo. Agora… eu estou acordado.

Ela tentou se arrastar, mas Jeff a segurou e sussurrou em seu ouvido:

— Vá dormir…


Na manhã seguinte, os enfermeiros encontraram o quarto de Jeff vazio. O corpo de Margaret foi encontrado no banheiro, com um sorriso rasgado no rosto e os olhos abertos, congelados em agonia.

O corpo de Peter foi encontrado dois andares abaixo, jogado de uma janela.

E Jeff?

Jeff havia desaparecido completamente.

A única coisa deixada para trás foi uma frase escrita na parede com sangue:

“Vá dormir.”



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