Olá, meu nome é Matt, mas podem me chamar de Jadusable (meu nickname). Eu me mudei recentemente para o dormitório do colégio, começando como aluno do ensino médio, e um amigo meu me deu o seu velho Nintendo 64 para que eu jogasse. Fiquei impressionado em saber que finalmente poderia jogar todos os jogos antigos da minha infância, que eu não tocava há pelo menos uma década. O Nintendo 64 veio com um controle amarelo e uma cópia de má qualidade de Super Smash Brothers e, como querer não é poder, não demorou muito até eu me cansar de ficar ganhando das CPUs.
Naquele fim de semana, decidi dar uma volta por algumas vizinhanças durante uns 20 minutos, parando em todas as vendas de garagem, esperando conseguir alguns jogos por um bom preço de pais desinformados. Acabei comprando uma cópia de Pokémon Stadium, GoldenEye (isso aí, porra), F-Zero e mais dois controles por 2 dólares. Satisfeito, comecei a ir embora da vizinhança quando uma última casa me chamou a atenção. Ainda não faço ideia do porquê, mas algo meio que me arrastou até lá.
Normalmente tenho autoconfiança sobre essas coisas, então saí do carro e fui saudado por um homem velho. Sua aparência era, por falta de uma palavra melhor, desagradável. Isso era estranho, pois, se você me perguntasse por quê, eu não conseguiria apontar nada específico — apenas havia algo nele que me deixava perturbado. Tudo que posso dizer é que, se não fosse no meio da tarde e com pessoas por perto, eu nem pensaria em me aproximar daquele homem.
Ele deu um breve sorriso e perguntou o que eu procurava. Imediatamente notei que ele era cego de um dos olhos; o direito tinha uma aparência “vidrada”. Fui então forçado a olhar para o olho esquerdo, tentando não ser ofensivo, e perguntei se ele tinha jogos antigos de videogame. Eu já estava pensando em como me desculpar quando ele dissesse que não fazia ideia do que era um videogame, mas, para minha surpresa, disse que tinha alguns em uma caixa velha. Ele falou que voltaria “rapidinho” e entrou na garagem.
Enquanto ele ia, não pude deixar de notar o que estava sobre a mesa: pinturas peculiares. Várias pinturas que pareciam manchas de tinta que um psiquiatra te mostraria. Curiosamente, examinei-as — era óbvio por que ninguém visitava aquela venda de garagem. Os quadros não eram nada agradáveis. No último, porém, por algum motivo, ele parecia quase idêntico à Majora’s Mask — a mesma máscara em forma de coração com pequenos espinhos apontando para fora. Inicialmente, achei que era só impressão minha, mas, considerando o que aconteceu depois, não tenho tanta certeza assim. Eu deveria ter perguntado sobre aquilo. Queria ter perguntado.
Depois de tanto olhar aquela mancha, olhei para trás e o homem estava ali, parado, sorrindo para mim. Admito que até pulei de susto. Nervoso, ri quando ele me entregou um cartucho de Nintendo 64. Era um cartucho comum, totalmente cinza, exceto por alguém ter escrito “Majora” atrás com tinta permanente. Meu estômago gelou com a coincidência, e perguntei quanto ele queria. Ele sorriu e disse que eu poderia ficar com ele de graça, que pertencia a um garoto mais ou menos da minha idade que não morava mais lá.
Havia algo suspeito na forma como ele disse isso, mas eu não prestei muita atenção, pois estava animado não só por ter encontrado aquele jogo, mas também por tê-lo conseguido de graça. No início, não fiquei muito esperançoso, já que o cartucho era bem velho e não havia garantia de que funcionaria. Ainda assim, meu lado otimista pensava que talvez pudesse ser uma versão beta ou até pirateada do jogo — algo diferente, que trouxesse de volta aquela sensação de nostalgia. Agradeci ao homem, e ele sorriu novamente, desejando-me tudo de bom, dizendo: “Adeus, então! (Goodbye then!)”.
Pelo menos foi isso que pareceu. No caminho de volta para casa, fiquei inquieto, pensando se ele realmente tinha dito aquilo. Meus medos começaram a tomar forma quando coloquei o jogo — que, para minha surpresa, funcionou perfeitamente. Na tela inicial, havia um arquivo salvo com o nome “BEN”.
“Adeus, Ben.” Foi isso que ele disse. Na hora, senti pena do velho. Provavelmente um avô, talvez já senil… e eu, por alguma razão, o fiz lembrar do neto. Por curiosidade, abri o arquivo. De cara, dava para ver que o jogador já estava bem avançado — tinha quase todas as máscaras e três quartos dos chefes derrotados. Também notei que ele havia salvado usando uma estátua de coruja; estava no Dia 3, no Stone Tower Temple, com pouco mais de uma hora antes da lua cair.
Era triste. Tão perto do fim… e nunca terminou. Criei um novo arquivo com o nome “Link” e comecei o jogo, pronto para reviver minha infância. E, no começo, parecia normal. Para um cartucho aparentemente comum, o jogo rodava incrivelmente bem — praticamente igual a uma cópia original, tirando pequenos problemas aqui e ali: texturas fora do lugar, flashes estranhos de cenas… nada muito grave. Mas havia algo. Algo… errado. Às vezes, os NPCs me chamavam de “Link”. Outras vezes… de “Ben”.
No início, achei que fosse um bug — talvez os arquivos estivessem se misturando. Mas, com o tempo, aquilo começou a me incomodar mais do que deveria. Então, depois de passar pelo Woodfall Temple, decidi apagar o arquivo “BEN”. No começo, pensei em mantê-lo por respeito ao antigo dono… mas, sinceramente, não precisava de dois arquivos. Achei que isso resolveria o problema. Mas não resolveu. Ou melhor… resolveu pela metade. Depois disso, os NPCs simplesmente… pararam de me chamar.
Não diziam mais “Link”. Nem “Ben”. Havia apenas um espaço vazio onde meu nome deveria estar. Como se… ninguém estivesse ali. Frustrado, e com muita lição de casa para fazer, deixei o jogo de lado por um dia. Na noite seguinte, voltei a jogar.
Peguei a Lens of Truth e comecei a explorar o Snowhead Temple. Alguns jogadores mais experientes conhecem o chamado “Glitch do 4º Dia”. Para quem não conhece, a ideia é simples: exatamente quando o relógio marca 00:00:00 no último dia, você fala com o astrônomo e olha pelo telescópio. Se fizer corretamente, o relógio desaparece e você ganha mais um dia.
Decidi tentar. E funcionou. Na primeira tentativa. O relógio sumiu. Mas, quando apertei B para sair do telescópio… algo estava errado. Muito errado. Em vez de aparecer o astrônomo, eu estava na arena final do jogo. Diante de mim… o Skull Kid flutuava no ar. Não havia som. Apenas ele… e a música ambiente normal da fase — o que, de alguma forma, tornava tudo ainda mais perturbador.
Minhas mãos começaram a suar. Aquilo não era possível. O Skull Kid nunca deveria estar ali. Tentei me mover, explorar o ambiente… mas não importava para onde eu fosse, ele sempre se virava para mim. Sempre olhando. Sempre… encarando. Sem dizer nada. Nada acontecia. Por cerca de um minuto. Comecei a pensar que o jogo tinha travado. Mas… no fundo… eu já sabia que não era isso. Eu ia apertar o botão de reset quando uma mensagem apareceu na tela:“You’re not sure why, but you apparently had a reservation...” (“Você não tem certeza por quê, mas aparentemente tinha uma reserva...”) Reconheci na hora. Era a mensagem do Stock Pot Inn. Mas… o que ela estava fazendo ali?
Recusei-me a acreditar que o jogo estava tentando se comunicar comigo. Continuei andando, procurando alguma explicação lógica — algum botão, algum gatilho escondido. Até perceber o quão absurdo aquilo tudo parecia. Quem conseguiria reprogramar um jogo desse jeito? Mas então…Outra mensagem apareceu: “Go to the lair of the temple’s boss? Yes / No” (“Ir para o covil do chefe do templo? Sim / Não”)
Fiquei parado por alguns segundos. Pensando. Tentando entender. Até perceber algo pior ainda: Eu não podia escolher “Não”. Respirei fundo. E selecionei “Sim”. A tela ficou completamente branca. Então surgiu a frase: “Dawn of a New Day” (O amanhecer de um novo dia) E, abaixo dela…||||||||
O lugar para onde fui transportado me encheu com a sensação mais intensa de medo que já senti na vida. A única forma de descrever aquilo é como uma depressão inexplicável, profunda… esmagadora. Eu não sou uma pessoa depressiva, mas aquilo — aquilo era diferente. Era como se alguma presença estivesse ali, me pressionando, me sufocando por dentro. Eu apareci em uma versão… errada da Clock Town.
Saí da Clock Tower, como normalmente se faz no início do Dia 1, mas algo estava errado. Não havia ninguém. Nenhum NPC. Nenhum som de pessoas. Nada. Normalmente, mesmo com o glitch do 4º dia, ainda aparecem guardas, o cachorro correndo… alguma coisa viva. Ali… não havia nada. O que existia, no lugar disso, era uma sensação horrível de que eu não estava sozinho. De que havia algo ali comigo. Algo… me observando. Eu só tinha 4 corações e o Hero’s Bow, mas, naquele ponto, eu nem me via mais como o personagem. Parecia… pessoal. Como se EU estivesse em perigo. Mas nada se comparava à música. Era a Song of Healing… Só que invertida. Tocada ao contrário. E cada vez mais alta. Como se estivesse se aproximando. Como se estivesse… me cercando.
A música te puxava para um estado de tensão absurda, como se algo fosse aparecer a qualquer momento. Mas nada aparecia. E isso… era pior. Muito pior. Porque o loop continuava. E continuava. E continuava…
Até começar a mexer com a minha cabeça. Em alguns momentos, eu ouvia a risada do Happy Mask Salesman. Baixa o suficiente para eu duvidar se realmente estava ouvindo… Mas alta o bastante para me deixar inquieto. Determinando a encontrá-lo. Procurei em todas as áreas da Clock Town. North, East, West e South. Nada. Ninguém.
Texturas estavam faltando. Na West Clock Town, eu literalmente andava no ar. O cenário parecia… quebrado. Como um mundo abandonado. Sem propósito. Sem vida. Enquanto a música invertida se repetia — talvez pela 50ª vez —, parei no meio da South Clock Town. E percebi algo. Eu nunca tinha me sentido tão sozinho em um videogame antes. Nunca. E então… começou a piorar. Enquanto eu vagava pela cidade vazia, algo começou a mudar dentro de mim. Não sei se era a atmosfera, as texturas quebradas, a música distorcida… ou tudo junto.
Mas eu estava à beira das lágrimas. Sem motivo. Eu quase nunca choro. Mas ali… eu queria chorar. Era como se aquela coisa estivesse puxando algo de dentro de mim. Algo pesado. Algo… escuro. Tentei sair da cidade. Mas toda vez que eu chegava a uma saída… A tela ficava preta. E eu reaparecia em outra parte da Clock Town. Preso. Completamente preso. Tentei usar a Ocarina. Toquei a Song of Time. Nada.
Song of Soaring. Nada. Apenas uma mensagem: “Your notes echo far, but nothing happens.” (“Suas notas ecoam longe, mas nada acontece.”) Nesse momento… ficou claro. O jogo não queria que eu saísse. Mas eu não fazia ideia do porquê. Foi então que tive uma ideia desesperada. Se eu me afogasse no Laundry Pool… talvez eu reaparecesse em outro lugar. Talvez escapasse. Corri até lá. Mas, antes de chegar… Aconteceu. Link parou. Levou as mãos à cabeça. A tela piscou. Por um segundo — apenas um segundo — Eu vi o rosto do Happy Mask Salesman. Não olhando para o Link. Mas para mim. Com aquele sorriso. E, ao fundo… O grito do Skull Kid. Quando a tela voltou… Eu não estava mais sozinho. A estátua. Aquela maldita estátua da Elegy of Emptiness. Estava na minha frente. Parada. Com aquele olhar vazio. Sem vida. Mas… olhando diretamente para mim.

Eu gritei. De verdade. Virei e saí correndo. Voltei para a South Clock Town. Mas então percebi… Ela estava me seguindo. Não andando. Não correndo. Mas… aparecendo. Sempre atrás de mim. Como uma sombra viva. Às vezes, surgia com uma animação rápida. Outras vezes, simplesmente… já estava lá. Como se nunca tivesse saído. Nesse ponto… eu já estava à beira da histeria. Mas, estranhamente… Nunca pensei em desligar o videogame. Nem por um segundo. Era como se eu estivesse preso. Não no jogo. Mas… na experiência. Tentei interagir com a estátua. Atacar. Nada funcionava. Ela sempre reaparecia atrás de mim. Sempre.
Então começou o pior. Link começou a agir… estranho. Movimentos que eu nunca tinha visto. Espasmos. Braços se contorcendo. Movimentos erráticos. E, toda vez que isso acontecia… A tela piscava. E o rosto do Happy Mask Salesman aparecia novamente. Sempre sorrindo. Sempre olhando para mim. Entrei no Swordmaster’s Dojo. Não sei por quê. Talvez… procurando segurança. Um lugar fechado. Algo familiar. Mas estava vazio. Completamente vazio. Quando me virei para sair… A estátua estava lá. Bloqueando a saída. Me encurralando. Tentei atacar.Nada. Sem efeito. Sem reação. Então… eu só parei. Fiquei olhando para ela. Esperando. Esperando que ela fizesse algo. Que terminasse aquilo. A tela piscou. O vendedor apareceu. E então… Link se virou. Para mim. Não para a câmera. Para mim. E ficou ao lado da estátua. Com a mesma expressão. Os dois… Me encarando. Algo quebrou ali. Algo dentro de mim. A quarta parede… simplesmente deixou de existir. E então… Eu corri.
Saí do Dojo como se o chão estivesse pegando fogo sob meus pés. O som da Song of Healing invertida voltou com tudo, como um coro de vozes afogadas tentando falar ao mesmo tempo. Sem aviso, o cenário mudou. Fui jogado para um túnel subterrâneo. As paredes eram estreitas, úmidas… mas não havia textura direito — parecia um esboço incompleto de mundo. Um lugar que não deveria ser visitado.
Por alguns segundos… silêncio. Um descanso falso. Então ela voltou. A estátua. Desta vez, agressiva. Eu mal conseguia dar dois passos antes dela aparecer atrás de mim novamente. Não era mais uma presença distante — era perseguição. Corri. Saí do túnel tropeçando, como se estivesse fugindo de algo que respirava na minha nuca, e reapareci na South Clock Town.
Eu não tinha direção. Só corria. Sem plano. Sem lógica. Só… medo. Então um Redead gritou. Aquele grito seco, congelante. A tela ficou preta. Totalmente preta. E então… “Dawn of a New Day” ||||||||| A tela voltou. Topo da Clock Tower. O Skull Kid flutuava novamente acima de mim. Silencioso. Eu olhei para a lua — enorme, próxima, esmagadora — mas algo estava diferente. O Skull Kid não estava brincando. Ele estava… me encarando. Com aquela máscara. Com uma expressão que não parecia mais parte de um jogo. Desesperado, equipei o arco.
Atirei. A flecha acertou. A animação de dano aconteceu. Atirei de novo. E de novo. Na terceira flecha… A caixa de texto apareceu: “That won’t do you any good. Hee, hee.” (“Isso não vai te fazer bem nenhum. Hee, hee.”) E então… Link foi levantado. Do chão. Como se algo invisível o tivesse agarrado. Ele começou a gritar. E, sem transição… Entrou em chamas.
Ele queimou. Instantaneamente. Sem chance. Sem defesa. Morto. Eu levei um susto absurdo. Aquilo não existia no jogo. Nunca existiu. O Skull Kid não tinha aquele poder. Ninguém tinha. A tela escureceu… E voltou. Mesmo lugar. Mesma cena. Como se nada tivesse acontecido. Tentei de novo. Mesmo resultado. Levantado. Queimado. Morto. Na terceira tentativa… silêncio. Nenhuma música. Nada. Só um vazio pesado. Foi então que lembrei.
A Ocarina. Era assim que você enfrentava o Skull Kid. Usei. Comecei a tocar a Song of Time. Mas antes da última nota… Fogo. De novo. Dessa vez… algo mudou. Enquanto a tela de morte rodava… O videogame começou a fazer um som estranho. Como se estivesse forçando algo. Processando demais. Como se estivesse… pensando. Quando a imagem voltou… Eu não estava jogando mais. Eu estava assistindo.
Link estava morto no chão. Em uma posição que eu nunca tinha visto. A cabeça virada para a câmera. O corpo… quebrado. O Skull Kid flutuava acima dele. Eu tentei mexer o controle. Nada. Nenhum botão funcionava. Eu só podia olhar. Só assistir. Trinta segundos. Silêncio. Tela preta. E então a mensagem: “You’ve met with a terrible fate, haven’t you?" (“Você encontrou um destino terrível, não é?”) Tela de título. Respirei fundo. Tremendo. Fui abrir os arquivos. Meu save… Não estava mais lá. No lugar… Um novo arquivo. “YOUR TURN” (“Sua vez”) 3 corações. 0 máscaras. Sem itens. Selecionei. Sem pensar. E fui jogado de volta.
Topo da Clock Tower.Link morto. Skull Kid rindo. Reset. Imediato. Quando o jogo voltou… Havia outro arquivo. Abaixo de “YOUR TURN”. “BEN” Exatamente como antes. Stone Tower Temple. Lua quase caindo. Como se eu nunca tivesse apagado. Foi aí que eu desliguei. Não por coragem. Mas porque algo dentro de mim finalmente quebrou. Eu não sou supersticioso. Nunca fui. Mas aquilo… Aquilo não era normal. Naquela noite… Eu não dormi direito. A música continuava na minha cabeça. Invertida. Sem parar. E quando finalmente dormi… Eu sonhei. Com a estátua. Ela me seguia. Não importava onde eu estivesse. Sempre atrás. Sempre perto. Em um momento… Ela estava a centímetros de mim. Olhos vazios. Fixos. E no sonho… Eu a chamei de “Ben”. E o pior? Parecia… certo.
No dia seguinte, logo após desligar o jogo, eu voltei até aquela vizinhança. Eu precisava de respostas. Mas, como em um roteiro que já sabia o final… A casa estava diferente. Uma placa de “VENDE-SE” estava fincada no jardim. Sem movimento. Sem sinal de vida. Toquei a campainha.
Nada. Quando estava voltando para o carro, um homem da casa ao lado, que cortava a grama, desligou o cortador e perguntou se eu procurava alguém. Expliquei sobre o velho. Ele confirmou: Ele estava se mudando. Tentei puxar mais informações. Perguntei se ele tinha família. Filhos. Netos. A resposta foi imediata. Fria. Direta. “Não. Nunca teve ninguém.” Aquilo não fez sentido. Nenhum.
Então fiz a pergunta que eu deveria ter feito desde o começo: “Quem é Ben?” O homem parou. A expressão dele mudou. Como se eu tivesse tocado em algo que não deveria. Ele olhou para mim por alguns segundos. E respondeu: Há cerca de 8 anos, no dia 23 de abril… um garoto chamado Ben morreu ali perto. Afogado. E só isso. Ele não quis dizer mais nada. Voltei para casa com aquilo ecoando na cabeça.
Afogado. Ben. O arquivo. O jogo. Liguei o Nintendo 64. E, na tela de título… Algo já estava errado. Quando a máscara apareceu… O som não foi o normal. Não foi aquele “whoosh”. Foi algo mais agudo. Mais… errado. Como um grito comprimido. Apertei Start. Os arquivos estavam lá. “YOUR TURN” “BEN” Mas o arquivo de “BEN”… Não era mais o mesmo. Ele tinha avançado. A Stone Tower Temple… Já estava completa. Como se alguém tivesse jogado. Sem mim. Respirei fundo. E selecionei. A tela piscou. E eu fui jogado direto para o caos. Eu estava do lado de fora da Stone Tower Temple. Mas o nome da área… Estava quebrado. “S t o n e” Espaçado. Errado. Como se o próprio jogo estivesse… falhando em se sustentar.
Uma caixa de diálogo apareceu. Mas não era texto. Eram palavras desconexas. Sem sentido. E então eu olhei para o Link. E… aquilo não era o Link. O corpo dele estava distorcido. As costas… quebradas para o lado. A postura impossível. E o rosto… Vazio. Sem expressão. Sem alma. Como um cadáver que ainda se move. Sons começaram a tocar. Aleatórios. Desconhecidos. Alguns… quase demoníacos. E, no fundo… Aquele som agudo. Aquela risada. Eu tentei me mover. Explorar. Entender. Mas durou pouco. Menos de dois minutos. Porque ela voltou. A estátua. E assim que apareceu… A tela mudou. Branco total. “Dawn of a New Day” Sem as barras. Sem nada. Dessa vez… Sem aviso. Eu estava na Clock Town. Como um Deku Scrub. A cena inicial começou. Tatl apareceu. “Wh-What just happened? It’s as if everything has…” E parou.
A frase nunca terminou. No fundo… A risada. Eu estava jogando. Mas a câmera… Não estava comigo. Eu via meu personagem… De trás de uma porta. Observando. Como se eu fosse outra coisa. Entrei na Clock Tower. Contra minha vontade. E lá estava ele. O Happy Mask Salesman. Ele olhou para mim. Sorriu. E disse: “You’ve met with a terrible fate, haven’t you?” Tela branca. Quando voltei… Eu estava em Termina Field. Mas aquilo… Não era mais o jogo. Sem HUD. Sem interface. Sem relógio. Sem nada. Só o mundo. E eu. E algo… errado. Não havia inimigos. Nada vivo. A música… Era uma versão distorcida do tema do vendedor de máscaras. E então eu vi. Três figuras ao longe. Me aproximei. Devagar. E meu estômago afundou. O Happy Mask Salesman. O Skull Kid. E… A estátua. Parados. Como se estivessem esperando. A Epona estava ali também. Mas em loop. Quebrada. O Skull Kid repetia movimentos. Mas o vendedor… Ele me seguiu. Com os olhos. Não importava para onde eu fosse. A cabeça dele girava. Devagar. Sempre olhando para mim. Sem diálogo. Sem ação. Só… observando. Foi aí que tentei algo. Peguei a Ocarina. E toquei a Song of Healing. A mesma música.
Aquela que estava invertida. Agora… normal. Terminei de tocar. E então… Um som absurdo explodiu. Alto. Doloroso. O céu começou a piscar. Rápido. Violento. A música acelerou. E então… Link explodiu em chamas. Morreu. De novo. E os três… Ficaram ali. Assistindo. Sem reação. Como se… Estivessem gostando.
Eu não tive tempo para processar. Assim que a tela de morte terminou… Outra cena começou. Sem corte. Sem lógica. Link se transformou. Em um Zora. E, de repente, eu estava no Great Bay. Tudo parecia… calmo. Mas era um tipo de calma errada. Como um mar antes de uma tempestade que nunca chega. Caminhei até a praia. E vi a Epona. Parada. Sozinha. Aquilo não fazia sentido. Ela não deveria estar ali. Fiquei alguns segundos olhando. Sem saber o que fazer. Então percebi algo. Ela não estava parada. Ela relinchava. Repetidamente. E a posição dela…
O ângulo do corpo… Era como se estivesse apontando. Para o mar. Não fazia sentido. Mas, naquele ponto… Nada mais precisava fazer sentido. Eu mergulhei. A água estava escura. Mais do que deveria. Comecei a nadar. Sem saber exatamente o porquê. Só seguindo… um instinto. E então eu vi. No fundo. Quase invisível. A última estátua. Desci até ela. Lentamente. E, quando cheguei perto… Algo aconteceu. Meu personagem começou a se contorcer. Uma animação que eu nunca tinha visto. Asfixia. Mas isso era impossível. Zoras respiram debaixo d’água. Mesmo assim… Ele começou a morrer. Sem motivo. Sem lógica. Se debatendo. Perdendo vida. Até… Parar. Morto.
E, como sempre… A única coisa que permanecia em destaque… Era a estátua. Observando. Dessa vez… Eu não reapareci. A tela simplesmente mudou. Menu principal. Como se eu tivesse reiniciado o console. Mas eu não toquei em nada. A tela de “Press Start” apareceu. E eu já sabia. Algo tinha mudado. Apertei Start. E lá estavam. Os arquivos. Mas agora… Eles contavam uma história. Uma história que eu não queria entender. Um arquivo novo. “DROWNED” (Afogou) Tudo fez sentido. De uma forma horrível. Ben não só morreu. Ele se afogou. E o jogo… Estava me mostrando isso. Não como história. Mas como memória. Como se eu estivesse vivendo aquilo. Ou pior… Revendo. Eu parei. Fiquei olhando para a tela. E pela primeira vez… Eu não senti medo. Eu senti algo diferente. Tristeza. Uma tristeza pesada. Antiga. Como se aquilo tudo não fosse só crueldade. Mas algo preso. Algo que não conseguiu… ir embora. Mas essa sensação não durou. Porque imediatamente eu entendi outra coisa. O jogo não estava me contando isso por empatia. Ele estava me puxando. Mais fundo. Como se dissesse: “Agora você sabe.” “Agora continua.” E foi aí que percebi. Isso nunca foi sobre o jogo. Nunca foi sobre bugs. Nunca foi sobre sustos. Era sobre controle. Sobre manipulação. Sobre me manter jogando. Porque, enquanto eu jogava… Ele podia continuar. Observando. Aprendendo. Brincando. Comigo.
Eu desliguei. Sem pensar. Sem hesitar. E fiquei em silêncio. O quarto parecia… diferente. Pesado. Como se algo ainda estivesse ali. Mesmo com o videogame desligado. Mesmo sem tela. Mesmo sem som. E foi nesse momento… Que eu tive certeza de uma coisa. Ele não estava mais só no jogo.
Eu passei um tempo sem tocar no jogo. Não por coragem. Mas por instinto. Algo dentro de mim dizia que continuar… não era só uma escolha. Era um convite. Mas a curiosidade é uma coisa perigosa. Ela não bate na porta. Ela fica cochichando atrás dela. E eu cedi. Voltei a jogar. Dessa vez… não era mais sobre nostalgia. Nem sobre entender. Era sobre terminar. Acabar com aquilo. De uma vez. Liguei o console. Tela de título. O som… ainda errado. Apertei Start. Os arquivos estavam lá. “YOUR TURN” “BEN” “DROWNED” Três nomes. Três peças. Escolhi “YOUR TURN”. Se aquilo queria algo de mim… Eu ia descobrir. A tela escureceu. E eu apareci na Clock Town. Tudo… normal. NPCs andando. Música correta. Céu limpo. Perfeito demais. Era como um palco. E eu sabia… Aquilo era uma mentira.
Mesmo assim, joguei. Avancei o tempo. Completei tarefas. Evitei erros. Tudo como deveria ser. Até chegar no último dia. Eu já sabia o que fazer. Subi até a Clock Tower. A lua estava lá. Pesada. Observando. Usei a Ocarina. E toquei a Oath of Order. A música dos gigantes. A música que deveria encerrar tudo. Por um segundo… Nada aconteceu. Silêncio. E então… O jogo respondeu Mas não como deveria. O céu não abriu. Os gigantes não vieram. Em vez disso… A tela tremeu. Como se algo estivesse forçando a realidade do jogo. E então… A música começou. Mas não era a Oath of Order. Era a Song of Healing. Invertida. De novo. Mais alta. Mais próxima. E então a tela cortou. Eu não estava mais na torre. Eu estava em um lugar vazio. Sem nome. Sem HUD. Sem interface. Só chão. Escuro. E, à minha frente… Ela. A estátua.
Mas… diferente. Maior. E não parada. Respirando. Movendo-se lentamente. Como algo que acordou depois de muito tempo. Eu tentei andar. Não consegui. Meu controle… Não respondia. Mas algo aconteceu. Uma caixa de texto apareceu. Não como as outras. Essa… não parecia do jogo. “Você chegou até aqui.” Português. Não inglês. Não script. Aquilo não estava programado. “Você quis ver.” Meu coração disparou. “Agora você entende.” A tela piscou. E então… Eu vi. Por um segundo. Um rosto. Não o Skull Kid. Não o vendedor. Um garoto. Molhado. Com olhos vazios. Me encarando. “Eu não fui embora.” Eu soltei o controle. Mas o jogo continuou. “Eu fiquei.” A estátua se moveu. Um passo. “E você ficou também.” Outro passo. “Agora…” Ela estava perto. Perto demais. “…é sua vez.” Tela preta. Silêncio. E então… “You’ve met with a terrible fate, haven’t you?”
Tela de título. Respirei. Demorei. Muito. Criei coragem. Entrei nos arquivos. Só havia um. “YOUR TURN” Sem “BEN”. Sem “DROWNED”. Só eu. Desliguei o console. E fiquei olhando para a tela preta. Esperando. Nada aconteceu. Mas… Eu não conseguia parar de pensar em uma coisa. Se ele precisava de alguém… Para continuar… E agora só existia “YOUR TURN”… Então isso nunca foi sobre o Ben. Foi sobre encontrar alguém… Para substituir. E, pela primeira vez desde que tudo começou… Eu tive medo de não estar mais jogando. Mas de estar sendo jogado.

Eu não joguei naquela noite. Nem na seguinte. Nem na outra. Mas isso não significava que tinha acabado. Porque o jogo… não precisava mais do console. Começou pequeno. Quase bobo. Meu computador travou uma vez. Depois outra. Nada demais. Até que, em uma dessas travadas, a tela piscou. Por menos de um segundo. Mas foi o suficiente. Uma imagem. A estátua. Na minha área de trabalho. Eu não tinha nenhuma imagem dela. Nenhum arquivo. Nada. Desliguei o monitor. Na hora. Fiquei alguns minutos parado. Sem respirar direito.
“É só impressão.”, “Só coisa da minha cabeça.” Liguei de novo. Nada. Área de trabalho normal. Mas o silêncio do quarto… não parecia normal. Comecei a notar outras coisas. Pequenas. Mas constantes. Arquivos mudando de lugar. Uma pasta abrindo sozinha O cursor mexendo um centímetro… quando eu não estava tocando. Coisas rápidas. Quase invisíveis. O suficiente pra me fazer duvidar. E era exatamente isso. Dúvida. Porque, se fosse algo óbvio… Eu teria certeza. Mas daquele jeito… Eu não sabia. E isso me prendia. Na terceira noite… Eu sonhei de novo. Mas não foi como antes. Não era só a estátua me seguindo. Dessa vez… Eu estava no meu quarto. Exatamente como ele é. Cama. Mesa. Computador. Tudo igual. Só que… tinha algo a mais. O som. A Song of Healing. Invertida. Baixa. Distante. Como se estivesse vindo de outro cômodo. Levantei. No sonho. Abri a porta. Corredor vazio. Mas o som ficava mais alto. Caminhei. Devagar.
Cada passo… mais pesado. Até chegar na sala. E lá… A TV estava ligada. Sozinha. Tela preta. Mas o som… vinha dela. Eu me aproximei. E então… A imagem apareceu. Era o jogo. Mas não como eu lembrava. Era… a minha gameplay. Exatamente como eu joguei. Cada movimento. Cada escolha.
Tudo. Como se estivesse sendo gravado. Como se alguém estivesse assistindo. E então… A câmera do jogo mudou. Não mostrava mais o Link. Mostrava… Atrás dele. Como se tivesse alguém seguindo. Observando. Sempre atrás. Sempre perto. E então a câmera virou. Devagar. Muito devagar. Até revelar… A estátua. Mas não parada.
Andando. E então ela olhou para a câmera. Para mim E a tela da TV… Refletiu algo. Algo que não estava no jogo. Atrás de mim. No sonho. Eu me virei. E acordei. Eu estava suando. Mas o pior… Era o som. Porque ele não parou. A música ainda estava lá. Baixa. Vindo… Do meu quarto. Eu não me movi. Fiquei parado na cama. Tentando entender. Até perceber algo. O som… Não vinha do computador. Nem da TV. Nem de nenhum aparelho. Vinha de…Atrás de mim. Eu virei. Devagar. Muito devagar. E não tinha nada. Nada. Mas… O som parou. Na mesma hora. No dia seguinte… Eu fiz algo que não deveria. Eu liguei o jogo de novo. Não por curiosidade. Mas por medo. Porque eu precisava saber. Se aquilo ainda estava lá. Ou se agora…
Estava aqui. A tela ligou. Normal. Título. Som… Normal. Apertei Start. Um arquivo. Só um. “YOUR TURN” Mas dessa vez… Ele tinha algo novo. Um tempo de jogo. 00:47 Eu não joguei 47 minutos. Nem cheguei perto disso. Minhas mãos começaram a tremer. Mas eu selecionei. A tela carregou. E eu apareci na Clock Town. Mas… Eu não estava sozinho. Porque, pela primeira vez… O Link não estava olhando para frente. Ele estava olhando… Para a câmera. Para mim. Com a mesma expressão vazia da estátua. E então… Ele falou. Sem caixa de texto. Sem legenda. Som direto. Baixo. Arranhado.
“Você também viu… não foi?” E naquele momento… Eu entendi. Isso nunca foi sobre me assustar. Nunca foi sobre o Ben. Nem sobre o jogo. Era sobre… Conexão. Sobre encontrar alguém… Que conseguisse ver. Que não desligasse. Que continuasse. E agora… Eu já tinha visto demais.
13 de setembro de 2010
00:47 – Eu falhei. Eu disse que iria queimar o cartucho. Disse que iria destruir tudo. Disse que isso acabaria comigo. Mas não acabou. Eu estou escrevendo isso tremendo, porque algo aconteceu quando tentei destruir o jogo. Algo que eu não consigo explicar… e que me fez perceber que isso nunca foi apenas um jogo. Coloquei o cartucho no chão do lado de fora do dormitório. Usei um isqueiro. Fiquei olhando enquanto o plástico começava a derreter, enquanto aquele cheiro químico subia no ar como um aviso tardio. E então… a tela do meu quarto ligou sozinha. Eu juro por tudo. O Nintendo 64 estava desligado. O cabo estava fora da tomada. Mas a TV ligou. E lá estava. A tela de título. Sem som. Sem música. Só a máscara. Observando. Eu larguei o isqueiro na hora. Corri de volta pra dentro como um animal fugindo de algo que não consegue ver. Quando voltei… o cartucho não estava mais lá fora.
01:12 – Ele voltou. Eu não sei como, mas ele voltou. O cartucho está agora aqui, na minha mesa. Intacto. Limpo. Como se nunca tivesse sido tocado. Como se nunca tivesse sido queimado.
01:40 – Eu não deveria ter feito isso. Eu não deveria ter tentado destruí-lo. Eu acho… não, eu tenho certeza agora… Ele não quer ser destruído. Ele quer ser jogado.
02:03 – Eu liguei o jogo de novo. Eu sei, eu sei… eu disse que não faria isso. Mas nesse ponto, não é mais escolha. É como se… ignorar fosse pior. Como se deixar ele parado fosse provocar alguma coisa ainda pior. Quando o jogo iniciou, não havia menu. Não havia arquivos. Não havia “YOUR TURN”. Não havia “BEN”. Só uma tela preta… por alguns segundos… E então apareceu: “LET’S FINISH THIS.” (Eu não toquei em nada.)
02:05 – Eu estava na Clock Tower. Mas não era a mesma. O céu estava… errado. Sem lua. Sem estrelas. Sem cor. Era como olhar para um buraco. Skull Kid estava lá… mas não se movia. Não flutuava. Só estava parado. Virado de costas.
02:06 – Eu tentei me mover. Link não respondia. Então Skull Kid virou lentamente. Sem animação normal. Sem som. Só… virou. E quando virou… Não era o Skull Kid. Era… o rosto da estátua. Aquela mesma expressão vazia. Aquele sorriso morto.
02:07 – O jogo travou. Ou eu achei que travou. Porque então apareceu texto. Mas não era como antes. Não era texto do jogo. Era… diferente. “Você me levou até aqui.” Eu congelei. Eu não sabia o que fazer. Outro texto apareceu: “Agora é a sua vez de entender.”
02:08 – A tela mudou. Sem transição. Sem fade. Nada. Eu estava… olhando para um quarto. Um quarto que não era do jogo. Era real demais. Detalhado demais. Uma cama. Um chão de madeira. Um videogame antigo ligado. E uma TV. Com Majora’s Mask rodando.
02:09 – Eu não estava mais jogando como Link. Eu estava… assistindo. E tinha alguém sentado na frente da TV. Um garoto.
02:10 – Ele não se mexia. Só ficava ali. Segurando o controle. O jogo na TV… era exatamente o que eu tinha jogado. Cada momento. Cada coisa. Como se… ele tivesse passado por tudo aquilo também.
02:11 – O garoto levantou. Lentamente. E virou para mim.
02:11 – Era ele. Ben.
02:12 – Eu não consigo descrever o rosto dele. Não completamente. Era… errado.Molhado. Como se tivesse acabado de sair da água. Os olhos… não piscavam. E mesmo assim… estavam vivos.
02:12 – Ele abriu a boca. E dessa vez… Não foi texto. Eu ouvi. Eu ouvi claramente. “Você entende agora?”
02:13 – Eu tentei desligar. Nada funcionava. Controle não respondia. Botões não respondiam. Nada.
02:13 – Ele começou a andar em direção à tela. Lentamente. Cada passo… fazia um som de água.
02:14 – A imagem começou a distorcer. Como fita velha. Como memória quebrando.
02:14 – Última coisa que apareceu: “Eu não queria ficar sozinho.”
[ARQUIVO FINAL]
Não sei quanto tempo passou. Acordei no chão. O jogo estava desligado. O cartucho… sumiu. Sumiu de verdade dessa vez. Eu não vou procurar. Eu não vou tentar entender mais. Porque agora eu sei. Isso nunca foi sobre um jogo amaldiçoado. Nunca foi sobre um erro. Nunca foi sobre um bug. Foi sobre alguém… Que ficou preso. Que foi esquecido. Que encontrou uma forma de continuar. E talvez… Só talvez…Agora ele não esteja mais sozinho. Se você estiver lendo isso… Não procure o jogo. Não tente achar o cartucho. Não tente reproduzir nada disso. Porque a pior parte não é ser perseguido. Não é ser observado. Não é o medo. A pior parte... É quando ele finalmente fala com você. E você entende.
No entanto, isso se revelou ser demais para mim, e estou feliz que tenha acontecido comigo, para que eu pudesse dar o aviso para todos e garantir que Ben morra aqui. Por fim, muito obrigado por terem tomado seu tempo para se abrirem comigo e ouvirem a minha história, mesmo que talvez não acreditem em mim. Vocês não precisavam ter feito isso, de verdade. O apoio de vocês durante todo esse tempo fez com que eu continuasse tentando, e agora, finalmente, estou livre disso.
Obrigado mais uma vez, Jadusable.
