Talvez você
não saiba, mas a Disney foi a principal responsável por transformar uma pequena
vila em uma vila fantasma, hoje conhecida como “Ghost Town”. Deixe-me explicar: a Disney
construiu o Treasure Island Resort (Resort da Ilha do Tesouro), que em
1999 teve o nome alterado para Discovery Island (Ilha da Descoberta),
localizada na Baía de Baker, nas Bahamas.
Discovery Island não era uma vila fantasma no
começo. Os navios de cruzeiro da Disney realmente desembarcavam ali e deixavam
os turistas aproveitarem o luxo do resort. Por um tempo, funcionou bem. Mas, de
repente, abandonaram tudo.
A empresa alegou que as águas da baía eram
rasas demais para seus navios operarem com segurança — e até colocaram a culpa
nos trabalhadores locais, dizendo que os bahamenses eram preguiçosos demais
para manter um horário regular. É aqui que os fatos terminam e as perguntas
começam. Porque, sinceramente, essas desculpas nunca me convenceram. O motivo
da minha descrença? O Palácio de Mogli.
Perto da cidade litorânea de Emerald Isle, na
Carolina do Norte, a Disney iniciou nos anos 1990 a construção do chamado Palácio
de Mogli. A ideia era criar um resort temático de selva, com um enorme
palácio inspirado na história de Mogli, o Menino Lobo, no centro de
tudo. Caso não conheça Mogli, ele é o menino criado por lobos, tanto protegido
quanto ameaçado por animais selvagens — popularizado pelos desenhos da Disney.
Desde o início, o projeto foi envolvido em
polêmicas. A Disney comprou terrenos caríssimos, e houve escândalos nas
aquisições. Casas recém-construídas foram condenadas com pouca ou nenhuma
explicação. O governo local alegou que usaria as terras para construir uma
rodovia... que nunca saiu do papel. A população passou a chamar o projeto de
“Rodovia Mickey Mouse”.
Durante uma reunião com moradores, a Disney
tentou vender o projeto como lucrativo para a comunidade. Produziram camisetas
promocionais e mostraram artes conceituais: um gigantesco palácio indiano no
meio da selva, cercado por homens e mulheres vestindo tangas e trajes tribais.
A reação foi desastrosa.
Um manifestante tentou invadir o palco e
destruir uma das placas de apresentação. Apesar da resistência da população, a
Disney avançou. As casas foram demolidas, os terrenos nivelados e, apesar da
oposição da mídia local no início, a cobertura foi suavizada por interesses
econômicos e turísticos.
A história se repetiu: o resort foi
construído, visitantes chegaram, o tráfego aumentou... e então, subitamente,
tudo parou. A Disney desligou o lugar e sumiu, como se quisesse apagar qualquer
rastro de que aquilo um dia existiu.
Anos depois, encontrei um blog de um
explorador urbano que havia visitado Treasure Island e relatado coisas
bizarras deixadas para trás: objetos quebrados, vandalismo, sinais de fúria por
parte de funcionários demitidos. Aquilo reacendeu minha curiosidade. Comecei a
pesquisar o Palácio de Mogli como possível destino para uma exploração
urbana.
Passei quase um ano tentando encontrar informações,
mas era como se o local nunca tivesse existido. Nada nos sites da Disney.
Descobri que empresas podem pedir ao Google para remover links de busca.
Provavelmente não era que ninguém tivesse falado sobre o resort... é que
ninguém conseguia mais encontrar essas informações.
O único recurso que me restava era um velho
mapa promocional dos anos 90 que recebi pelo correio quando fui à Disneylândia.
Depois de meses, reencontrei o mapa guardado junto com quadrinhos da minha
infância.
A viagem até lá foi longa. A vegetação
tropical havia tomado conta do local, flores nativas dominavam os caminhos.
Quando cheguei aos portões do resort, me deparei com estruturas gigantescas de
madeira, corroídas por insetos e picadas por pica-paus. Uma placa de metal,
escrita à mão, balançava: “ABANDONADO PELA DISNEY”.
Entrei com minha câmera e o mapa em mãos. O
terreno estava caótico, com plantas crescidas misturadas à decadência das
construções. Os prédios estavam em ruínas, a madeira apodrecida, os balcões
virados em entulho. No pátio em frente ao prédio principal, havia uma estátua
intacta de Baloo, o urso de Mogli, dançando com um sorriso congelado e coberto
de cocô de pássaro. Me aproximei do palácio. As portas haviam sido arrancadas
e, acima delas, novamente alguém pichou: “ABANDONADO PELA DISNEY”.
Lá dentro? Nada. Apenas o eco dos meus passos
em um espaço imenso e vazio. Estátuas, caixas registradoras, móveis... tudo
sumido. Só restavam alguns balcões, mesas e árvores artificiais, imensos,
espalhados pelo chão. Tudo coberto de poeira e podridão.
Na cozinha, vi ganchos de carne balançando
sozinhos. Os banheiros estavam destruídos e fétidos, com água estagnada no
chão. As torneiras ainda pingavam. Nos quartos, apenas destroços. Em um deles,
ouvi algo parecido com uma conversa, mas pode ter sido apenas minha mente me
pregando peças.
Perto de sair, vi algo no pátio: uma enorme
estátua de cobra enrolada num pedestal. Aproximei-me para tirar fotos... até
que ela se moveu. Olhou diretamente nos meus olhos e deslizou silenciosamente
até a floresta. Era real.
Ver aquilo me deixou em choque. No mapa,
aquele local era identificado como “Casa dos Répteis”. A Disney realmente
libertou seus animais exóticos antes de ir embora. Aquilo confirmava os rumores
sobre tubarões soltos em Treasure Island.
Voltei para dentro do palácio, ainda abalado.
Sentei-me em uma escadaria interna, coberta de poeira. Usei uma placa metálica
(mais uma com os dizeres “ABANDONADO PELA DISNEY”) como assento.
A escadaria levava ao subsolo. Usando o flash
da câmera como lanterna, cheguei até uma porta de grade metálica trancada com
cadeado. Uma placa dizia: “SOMENTE MASCOTES! OBRIGADO!” O cadeado parecia
resistente, mas consegui removê-lo dobrando a chapa de metal enferrujada da
parede.
O setor dos mascotes era surpreendentemente
intacto. Havia relógios, anotações, cadeiras, comida podre e um velho televisor
ainda funcionando com estática. Parecia que todos haviam saído às pressas.
Conforme eu explorava os corredores úmidos e
escuros, cheguei a uma sala com a inscrição “PREPARAÇÃO DE PERSONAGENS 1”. A
porta estava emperrada. Quando me afastei, ela se abriu sozinha. O interior
estava completamente escuro, até que, de repente, luzes fluorescentes se
acenderam com um zumbido ensurdecedor.
Ali estavam os trajes da Disney, pendurados
como cadáveres em forcas invisíveis. Entre eles, um traje de Mickey Mouse...
diferente. As cores eram invertidas, o vermelho era azul, o branco era preto.
Estava jogado no chão, como se alguém tivesse morrido dentro dele. Enquanto me
aproximava para fotografar, uma cabeça de traje do Pato Donald caiu — e junto
dela, um crânio humano rolou até meus pés. Corri. Mas antes de sair, olhei para
trás para registrar a cena. Foi então que o Mickey no centro da sala começou a
se levantar.
- Hey – disse ele com a voz abafada, mas
perfeitamente imitando o personagem.
- Quer ver minha cabeça sair?
Ele começou a puxar a própria cabeça. Dos
rasgos em seu pescoço, escorria um líquido amarelo, viscoso, asqueroso. Virei o
rosto quando ouvi o som horrível de carne rasgando. Acima da porta, mais uma
mensagem: “ABANDONADO PELA DISNEY”, gravada em metal com o que pareciam unhas
ou ossos.
Nunca publiquei as fotos. Nunca contei essa
história... até agora. Depois daquele dia, compreendi por que a Disney queria
esconder esse lugar. Eles não queriam que ninguém como eu entrasse lá. E,
principalmente... não queriam que aquilo saísse de lá.
Nenhum comentário:
Postar um comentário