Na semana passada, depois de uma festa que teve na casa do meu amigo, eu estava voltando para casa. É claro que a maioria das pessoas acharia a cidade assustadora à noite. Enquanto o vento soprava, fazendo as dobradiças rangerem, eu passava debaixo de uma bandeira que balançava com um vento misterioso.
Mas eu sabia que essa cidade era misteriosa. E não só tenho uma faca no bolso, como também sou rápido e forte, então não me assusto facilmente. Quando passei por um poste e olhei para um beco onde eu costumava brincar com meus amigos, vi uma figura estranha lá, que provavelmente estava à procura de restos de comida ou algo assim.
Eu não vi o rosto da pessoa, mas estava bem atento, caso ela fizesse algum movimento brusco. De repente, a figura virou a cabeça para trás e ficou olhando para mim. Entrei em choque, mas, ao mesmo tempo, me senti alegre. Acho que foi uma sensação estranha para um adolescente ter após ver um estranho em um beco, mas acho que sou diferente...
— Dane-se, os drogados daqui são todos estranhos.
Eu ri com meu pensamento e continuei andando. Eu estava ansioso para ficar sozinho em casa. Minha mãe estava trabalhando muito ultimamente, era até bom, eu acabava ficando com bastante tempo livre. Era de noite. Tudo à minha volta havia começado a ficar quente, enquanto eu flutuava pelo mundo estranho e confuso dos sonhos. Sabe aquela sensação tranquila, onde você sabe que está dormindo e simplesmente sente uma paz ao longo do sono?
De repente, sou acordado por algum barulho. Fico sentado na cama e começo a esfregar os olhos para ajustá-los ao escuro. Permaneço ali por um momento, perguntando-me o que me acordou. Quando estou prestes a me deitar e me enrolar nos meus lençóis macios, um som chama minha atenção.
crrrac-ccckkk-crakack
Parecia ter vindo lá de baixo. Deve ter sido os gatos, provavelmente tentando entrar em alguma coisa. Animais estúpidos. Eu odiava quando esses malditos gatos me acordavam. Irritado, me deitei e fui tentar dormir novamente. O som não para... e, em vez de continuar em um padrão irregular, ele entra em ritmo. Depois de alguns segundos, começo a me encher daquele barulho monótono. Que porra é essa?
Tento pensar em possíveis explicações para aqueles estalos. Pego minha faca na cabeceira da cama e resolvo descer para ver o que era. Acho que estava exagerando ao ir com uma faca, mas é melhor prevenir do que remediar.
Continuo tentando entender o que poderia estar fazendo aquele som... até que, de repente, percebo que algo está ficando cada vez mais perto de mim. Agarro minha faca com mais força. Está definitivamente chegando mais perto, quase como se estivesse andando pelo corredor. ANDANDO PELO CORREDOR!
“Andando”. Essa única palavra parecia ecoar na minha cabeça. Um leve som de passos lentos começou a percorrer a casa, vindo em minha direção. Então, eu já não tinha mais dúvidas: havia, sim, alguém em minha casa.
Posso sentir um formigamento bruto subindo pelo meu pescoço, arrepiando meu cabelo. Minha visão ficou nítida e meu coração disparou. Uma explosão de adrenalina tomou conta de mim. Estou paralisado no lugar, como uma estátua de mármore. Não me atrevo a respirar. Meu batimento cardíaco é lento e barulhento. Posso sentir cada pulso reverberar pelo meu corpo. Se ficar mais alto, é capaz da pessoa no corredor me ouvir. O que eu faço? Fujo? Me escondo? Fico e faço uma emboscada para o invasor?
Vejo a sombra de pés parar em frente à minha porta. A porta faz um rangido, e eu fico paralisado novamente. Minha respiração para e minha garganta dói. Sinto como se meu coração estivesse parando, mas meu sangue continua pulsando lentamente pelo corpo, enquanto um suor frio toma conta de mim.
Quando a porta termina de abrir completamente, uma figura para no centro da entrada. Minha boca não funciona. Tento gritar por socorro, mas não consigo pronunciar as palavras. Eu não deveria ser capaz de pensar tão profundamente, mas a figura me faz lembrar da criatura do beco que estava fuçando o lixo. A roupa que ele vestia era a mesma — até o mesmo capuz azul. A criatura levanta o capuz, e eu posso ver sua pele pálida e acinzentada brilhar à luz da lua. Seus olhos parecem pulverizados de sangue. Isso envia outro arrepio elétrico pela minha espinha. Fecho os olhos, sem saber o que fazer. Minha mente implora para eu não morrer. Meus membros não obedecem mais ao meu cérebro.
— Não... — é tudo que consigo tentar dizer, mas minha boca se recusa a abrir.
A figura era do sexo masculino. Seu rosto estava quase totalmente oculto: óculos sobre os olhos, o capuz sobre a testa e algo estranho cobrindo sua boca e queixo. Ele caminhou para frente, balançando levemente os braços. Quando deu um passo dolorosamente lento em minha direção, levantou uma mão até a boca e colocou um dedo sobre os lábios.
— Shhhhhh...
Eu recuei contra a cama, pressionando minhas costas contra a madeira. Segurava minha faca com tanta força que minhas juntas já estavam brancas. Meus olhos, de repente, caíram sobre o objeto na mão do menino. Senti minhas pupilas dilatarem de medo. Era uma arma muito melhor que a minha. E, pela visão do sangue pingando da lâmina, eu diria que ele possuía mais experiência também. O intruso segurava um machado. Sangue escorria lentamente pela lâmina.
— Shhhhhh... — disse a figura novamente, enquanto se aproximava.
Não dava para fugir. Não dava para me mover. Eu estava ferrado. A cabeça da criatura agora estava inclinada em um ângulo anormal. Aquilo era perturbador.
— Shhhhhh...
Mais um passo e ele estaria a um metro de mim. Ele levantou a mão com o machado. Minha visão escureceu. Meus joelhos tremiam. Eu podia sentir toda a minha agitação queimando dentro de mim. O machado veio em minha direção lentamente. Eu podia sentir a lâmina entrando no meu corpo. Só consegui ver a alegria no rosto da criatura enquanto ele cravava o machado em mim... Até que meu mundo ficou escuro e dormente.
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